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Juíza cita misoginia e cultura patriarcal como justificativa ao conceder perdão a Monique Medeiros

quinta-feira, 4 de junho de 2026 | 09:22 WIB Last Updated 2026-06-04T16:22:20Z
juiza cita misoginia e cultura patriarcal como justificativa para conceder perdao a monique medeiros
Via @jurinewsbr | A juíza Elizabeth Machado Louro concedeu perdão judicial a Monique Medeiros, em decisão proferida na madrugada desta quinta-feira (4), argumentando que a repercussão social do caso pela morte de Henry Borel, 4, foi desproporcional e marcada por preconceitos de gênero. A magistrada fundamentou que a mulher foi vítima de uma cultura patriarcal que exige o ideal da "mãe perfeita", mesmo quando não há dolo direto no crime. A decisão ocorreu durante o julgamento que condenou Jairo Souza Santos Júnior, o Jairinho, a 43 anos, 9 meses e 20 dias de prisão pela morte do menino.

O perdão a Monique, mãe da criança, foi concedido após os jurados entenderem que ela não teve intenção (dolo) no homicídio. Em sua decisão, a juíza Elizabeth Machado Louro declarou que Monique Medeiros foi alvo de um "massacre" público e sofreu agressões até mesmo dentro do sistema prisional.

A magistrada expressou que o sofrimento de Monique foi incomensurável, pois, além de perder o filho sem ter contribuído intencionalmente para o ocorrido, ela foi alvo de uma perseguição implacável contra sua honra e autoestima como mãe ao longo de cinco anos. A juíza salientou ainda o completo desprezo pela dor do luto da acusada.

"Por todas essas razões, tenho como medida de justiça mais acertada, relativamente ao crime de homicídio culposo para o qual foi desclassificada a imputação original, a extinção de sua punibilidade pelo perdão judicial", afirmou a juíza.

Para a magistrada, a dificuldade em erradicar do universo cultural o status quo de inferioridade feminina é evidente, "em que pesem os vultuosos movimentos que o combatem". Ela avaliou que um homem submetido às mesmas circunstâncias dificilmente teria enfrentado tratamento semelhante.

"Fosse o pai e não a mãe na mesma situação, nem sequer teria sido ele processado, como é regra nos processos de igual natureza. É que o papel culturalmente reservado à mulher nos moldes patriarcais não só dela exige ser mãe, mas, muito além, a mãe perfeita. Mãe suficiente não basta", explicou a juíza.

Segundo a juíza, a sociedade ainda impõe à mulher padrões incompatíveis com a realidade humana, e esse fenômeno teria influenciado a forma como Monique Medeiros foi tratada. "A oposição a esse setor das lutas identitárias, no mais das vezes, opera de forma sutil. Daí a dificuldade de se eliminá-la pela via da conscientização. Mas atualmente chegou ao extremo da misoginia declarada. É o que parece ter se dado com relação à imputação dirigida à ré", pontuou.

A magistrada ressaltou que, desde a fase de investigação, Monique Medeiros não teve o benefício da dúvida. Ao longo do processo, mesmo sendo apontada como mãe zelosa e sem acusação de ter infligido diretamente agressões físicas ao filho, a revolta pública evoluiu rapidamente para um "franco massacre" nas redes sociais, com ataques mais virulentos do que aqueles dirigidos ao autor direto das agressões.

Os ataques, segundo a juíza, ultrapassaram o ambiente virtual e alcançaram o sistema prisional. "Os ataques não se limitaram ao público em geral. Estenderam-se a alguns profissionais envolvidos com a causa, incluindo os responsáveis por sua custódia, passando pelas demais detentas, que se recusavam a dividir o mesmo espaço com a ré, chegando ao ponto de agredi-la no cárcere, pelo que o isolamento foi o que lhe restou", relatou.

Monique Medeiros foi condenada a um ano e quatro meses de prisão por omissão no caso de tortura. Contudo, como já cumpriu o período de prisão preventiva, a pena foi considerada integralmente cumprida.

O julgamento de Jairinho e o processo relacionado à morte de Henry Borel foram marcados por sua longa duração, totalizando 11 dias. Este foi o julgamento mais extenso da história do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro (TJ-RJ).

A decisão da juíza Elizabeth Machado Louro, ao citar a misoginia e a cultura patriarcal como justificativas para o perdão judicial, trouxe à tona o debate sobre a influência de preconceitos de gênero em decisões judiciais e o tratamento dispensado às mulheres em processos criminais, destacando a complexidade inerente à busca por justiça em casos envolvendo violência e morte.

Fonte: JuriNews

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